A Palhaçada

Era uma noite muito fria, chuvosa, perto de meia-noite, no final da década de 1970. Estávamos indo nos apresentar no que seria o quarto circo da noite, na periferia de um subúrbio de São Paulo.

No carro íamos eu; Tibério, o baterista; Vicente, o motorista; e Cláudio, que era cantor popular de sucesso na época. Claudio di Moro.

Por aqueles tempos, com quase vinte anos de idade, eu estava, praticamente, começando na profissão. Havia feito alguns trabalhos antes, mas Cláudio foi o primeiro cantor com quem trabalhei regularmente. Ele tinha alguns discos gravados, cantava muito bem e fazia muitos shows. Tudo era muito novo para mim: aquela movimentação toda, os circos e salões de forró que percorríamos todos os finais de semana, a histeria das fãs, coisas que até então eu só havia visto pela televisão. Aquilo estava acontecendo comigo, e, claro, como não gostar?

A gente fazia várias apresentações por noite, e antes de chegar ao último show daquela noite, eu já estava bastante cansado, querendo voltar logo para casa. Tocar exposto ao frio é bem desagradável, principalmene porque os dedos congelam e ficam totalmente insensíveis ao toque no instrumento. O que eu ainda não sabia, é que naquela noite estava por acontecer uma das experiências mais marcantes de minha carreira e de minha vida.

O carro ia descendo devagar a inclinada e escura rua de terra batida em direção à lona, que já se via lá embaixo, numa espécie de cratera. Era um bairro muito pobre. Descemos do carro em meio à água e ao barro, com cuidado para não escorregar, com o vento impiedoso fustigando nossos rostos e rachando os lábios. Ao ver o circo de perto fiquei um pouco entristecido. Era o mais pobre e precário em que eu já havia posto os pés. A lona, escurecida pelo mofo, já sem cor alguma, roubada pelo tempo, tão furada que parecia uma enorme peneira.

Quando entramos, senti tristeza ainda maior. Não havia quase ninguém, apenas uns dez ou doze gatos-pingados, entre os quais, as próprias pessoas que trabalhavam no circo, acomodados numas cadeirinhas velhas e tortas, malajambradas por sobre a lama, que insistia em se espalhar por todo o chão, misturada à serragem encharcada. Crianças e adultos, arrumadinhos, esperavam. Chovia mais dentro do que fora. O peso da água acumulada formava barrigas na lona e vinha para dentro num volume muito maior do que a própria chuva lá fora.

Foi então que eu vi a comovente figura de um palhaço, não mais pintado, mas denunciado pelos restos de maquilagem no rosto, vindo em nossa direção. Era o dono do cirquinho, e vinha com cara alegre e simpática nos dar boas-vindas. Vestia um velho paletó cinza, grande, com mangas compridas para seu tamanho, com certeza aproveitado de alguém, e calças com visíveis mas caprichosos remendos, largas, tão desbotadas que, como a lona, era impossível identificar de que cor seriam. Os sapatos, enlameados. Sem dúvida estava vestido com sua melhor roupa, aquela para ocasiões especiais.

Ia agora, após o término de sua função e de suas palhaçadas, apresentar a atração principal da noite para, em seguida, empoleirar-se naquelas cadeirinhas, junto aos outros espectadores.

Naquela época os circos eram um importante espaço para shows de artistas dedicados ao segmento musical mais popular, e na maioria das vezes as apresentações eram bastante concorridas e bem-sucedidas. Outro artista que naquela época fazia muito sucesso nos circos (e fora deles também) era o Sidney Magal.

Naquela noite, era diferente.

Com uma alegria desconcertante, ele nos apresentou:

– Respeitável público…

Nesse momento, uma luz cobriu aquele lugar, fazendo-me esquecer todo o cansaço. Não, a luz já estava lá, e sempre esteve, desde que havíamos chegado. Eu é que não havia percebido antes. Essa luz sempre está nesses lugares.

Os rostos das pessoas, cujas feições não se via direito – mas que chamavam toda a atenção por causa do brilho de seus olhos – iam ganhando contornos angelicais, celestes, que nem de longe faziam lembrar suas vidas provavelmente sofridas. Aquele palhaço era a própria essência viva da arte. Com a chuva, a lama, a lona toda furada e doze gatos literalmente pingados na platéia, o palhaço apresentador equilibrando-se num palquinho improvisado, que parecia ter sido montado com caixotes de feira, personificava tudo o que existe de mais puro, divino e sagrado num artista de verdade. Com orgulho, apresentou solenemente a atração, como se o seu circo fosse o maior e mais famoso do mundo.

Empunhei a guitarra, passei a correia no ombro, e toquei com prazer nunca antes experimentado. O que aconteceu ali foi o meu ritual de iniciação ao culto e à magia da arte. Aquela noite era minha. Foi uma lição para a vida.

Hoje, tomando distância desses fatos acontecidos há tanto tempo, fico feliz quando lembro, e contente por ter podido participar daquela cena, ganhando compreensão de coisas que, sei, nunca poderei permitir me esquecer, por mais tempo que venha a  viver.

Sempre que lembro daquela noite peço aos anjos, numa prece muda, a realização de um profundo desejo recorrente que sempre me acompanha no coração desde aquele dia – que tenham guardado aquele palhaço, aquele circo e aquelas pessoas, perdidos no tempo e naquela noite fria e chuvosa, no final da década de 1970.

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  1. : O Circo sempre me fascinou desde criança. Meus pais tinham um apartamento em Santos, no condomínio Jardim do Atlântico, Posto 6, onde passávamos as férias, e os circos famosos costumavam erguer suas lonas numa área imensa atrás do prédio, onde hoje em dia é o Sesc. Depois das sessões os artistas vinham no bar-restaurante Ilhas do Sul, ao lado do meu prédio, e ficavam nas mesas da calçada curtindo a noite sob meu embevecido e deslumbrado olhar. Eu ficava ouvindo as conversas em línguas que eu não entendia, e ficava imaginando como seria legal viajar com o circo. Naquela época eu jamais imaginaria que minha vida seria parecida, que eu teria, como fala o pessoal de circo, serragem no sangue…e que eu sempre moraria, como diz o ditado, “debaixo do meu chapéu e em cima das minhas botas”.
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