Alta Tensão– Minhas impressões do Raul Seixas

O ano era 1985, num sábado à tarde. O ensaio ia começar.

Algumas semanas antes eu havia sido convidado pra tocar na banda de um artista idolatrado por todos, ninguém mais, ninguém menos do que Raul Seixas. A banda anterior tinha parado, exceto o tecladista Olmair Raposo, que ficou incumbido de formar a nova banda.

O Raul pretendia iniciar uma série de shows e, para esquentar os motores, foram agendados alguns shows em São Paulo.

Eu estava achando fantástico, pois naquela época o Raul já era considerado um dos grandes nomes da música. Ele era o primeiro artista com quem eu tocava que tinha aquela dimensão de projeção, além do público imenso sobre o qual exercia um fascínio fabuloso, místico, através de suas músicas e de seu extraordinário carisma.

Eu não via a hora de fazermos o primeiro ensaio e tocarmos aquelas músicas que eu adorava e que já tinha tocado em tantas outras ocasiões…mas agora era completamente diferente, era com o próprio Raul dos Santos Seixas.

Ele era fiel às suas idéias e convicções ao extremo, radical e autêntico como poucas pessoas o são. Não fazia concessões nem mesmo ao destino, vivendo e cultivando exatamente a ideologia que espontaneamente preconizava. Rebeldia, insubmissão e uma dose de inconseqüência…eram justamente esses ingredientes que formavam o coquetel explosivo que era sua controvertida e criativa personalidade, que seduziam, e ainda hoje seduzem sua fiel e inextinguível legião de fãs Brasil afora.

 

                               Eu, Raul e Parron (na bateria)

Chegou o tão esperado dia do primeiro ensaio na casa do Raul, no Butantã. Na época ele morava em São Paulo. A banda era eu na guitarra, o Olmair Raposo nos teclados, João Mourão no baixo, Monsieur Parron na bateria e o Tony Osanah, lendário guitarrista argentino, amigo-irmão do Raul. Como curiosidade, o Tony é o guitarrista que aparece tocando Alegria, Alegria com o Caetano Veloso no Festival da Record, em 1967.

Montamos a bateria e os amplificadores na sala e começamos a ensaiar a primeira música, que foi Maluco Beleza. Ao ouvir o som da banda o Raul desceu a escada com seus óculos escuros e juntou-se a nós. Pouco conversamos, mas o ensaio foi muito legal. Como podem imaginar, eu estava exultante, muito feliz. Tocamos o tempo todo, passando várias vezes as músicas na ordem determinada para os shows.
Depois do ensaio ele convidou a gente pra subir e nos levou para um quarto onde ficava sua coleção de discos, que fez questão de nos mostrar, tocando discos e mais discos.

Finalmente chegou o dia do primeiro show, numa casa chamada Raio Laser, em São Paulo.

                                                                                                    Raul e Tony

O público lotava completamente a casa, amassando-se e espremendo-se em toda a extensão da área, tomado por uma quase selvagem excitação. Do camarim a gente ouvia o público gritando e chamando o Raul. Nossa adrenalina foi aumentando.
Ao entrar no palco eu não acreditei no mar de gente. Ao nos ouvirem testando os instrumentos ficaram mais excitados ainda, gritando e uivando tão alto que não foi possível ouvir o técnico de palco me perguntado alguma coisa. Percebi que ele queria saber se estava tudo bem. Respondi que sim, também na mímica.

Atacamos os primeiros acordes de “Sociedade Alternativa”, imediatamente identificados pelo público que, frenético, começou a dançar, pular e gritar mais ainda. Entra o Raul, para delírio e loucura geral, e começa a cantar a música. A massa acompanha hipnotizada:
“Viva, viva…”
Senti uma emoção indescritível!

Durante a apresentação, ao desenrolar o rol de sucessos o Raul cantava, tocava guitarra, pulava, caia, levantava, deitava e rolava pelo palco.
De joelhos na beira do palco, estendeu o braço para frente com o microfone na mão, incitando o público a cantar. Imediatamente formou-se um bolo de gente ao seu redor, e quando os seguranças conseguiram puxá-lo de lá, o microfone tinha sumido, veio só o fio. Com certeza alguém tem hoje um microfone em casa, que deve mostrar e contar pra todos quem cantou nele um dia.

                                                                                                   Tony, Raul e eu

No fim da apresentação Raul deixou o palco aclamado em meio a uma verdadeira catarse coletiva. Acabamos o show com a alma lavada e felizes.
Após o show, no camarim, outra surpresa: entrou pra cumprimentar o Raul e a banda um sorridente Belchior, com quem essa mesma banda (exceto o Tony) iria tocar num futuro bem próximo.
Aquele tinha sido um dia perfeito e fui dormir completamente realizado.

O clima festivo sempre dominava aqueles shows, mas a concentração de energia em estado bruto era tão forte e intensa, que junto com esse clima festivo havia sempre uma certa tensão latente levitando no ar.

Alguns anos mais tarde, já tocando com o Belchior, durante uma turnê pelo sul do país, a caminho de Pelotas, vimos pela televisão do ônibus a notícia de sua morte. Ficamos todos muito tristes.

Tempos depois, pude confirmar mais uma vez o quanto sua singular e fantástica figura era querida, estimada e mistificada: eu fazia um show com o Belchior num ginásio de esportes, cuja abertura tinha sido feita por um cover do Raul Seixas. O cantor se caracterizava exatamente como ele: a mesma voz, a barba, os indefectíveis óculos escuros e tudo mais. Era incrível, o público em delírio reagia como se estivesse diante do próprio, em carne e osso, tamanha a força e magia da obra e da imagem que deixou, e que quando invocadas, recriam fielmente a aura daqueles momentos.
Ainda hoje, quando digo que toquei com o Raul Seixas, não há uma pessoa sequer que não abra a boca admirada e exclame:
“Pô, cara! Você tocou com o Raul!”…e, instantaneamente, a pessoa passa a te olhar diferente.
Pois é…ainda hoje, às vezes nem eu mesmo acredito…
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N. do A.: O Raul sempre provocou muita controvérsia e ainda hoje suscita polêmicas apaixonadas a seu respeito.
O que você acha do Raul Seixas?____________________________________________________________________

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Veja mais algumas fotos desse show:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Raul e João Mourão

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