Baião de dois

Primeira vez em Fortaleza, janeiro de 1991, encostado num muro da praia da Jurema, eu esperava a jardineira (ônibus) que me levaria à Praia do Futuro. A mais ou menos vinte metros de distância, vinha pela calçada um sujeito bem forte, atarracado e com cara de bravo, que veio me encarando já de longe. Eu ali, ainda encostado, olhando-o disfarçadamente com o rabo dos olhos,
Naquela época eu tinha um cabelo supercomprido e loiro e achava que ele poderia estar querendo implicar com isso.

Desde adolescente sempre ouvi encheções por causa do cabelão, mas sempre levei na boa. A prova máxima de minha paciência zen foi quando me apresentei para o exame físico do alistamento militar com os cabelos batendo na cintura. Ainda estava escuro e havia uma fila imensa ao longo do muro do quartel. Ao começar a caminhar em direção do final da fila comecei a ouvir um zum-zum-zum, a princípio tímido, que foi tomando corpo, fazendo meu sangue gelar.

Eu já tinha identificado o teor daquele burburinho quando um infeliz gritou: “Vanusaaaa…”, pra em seguida cair na risada seguido por todos. O sangue, antes gelado agora ferveu, mas não havia o que fazer. Outro lá na frente: “Vanusaaaa…”, mais risadas. Mais três Vanusas, de pontos diferentes da fila.
O pessoa foi se animando, até que, em segundos, a fila inteira, e até os soldados, todos juntos e a uma só voz, me ovacionavam festivamente em coro: “Va-nu-sa, Va-nu-sa, Va-nu-sa!”. Só pararam quando se cansaram.
Foi uma provação, mas sobrevivi a isso. E não foi o suficiente pra me fazer cortar o cabelo.

O cara chegava mais perto, olhar fixo em mim, me deixando cada vez mais apreensivo. Ele vinha me medindo e me encarando…
O trauma da “Vanusa” me fazia acreditar que era por causa do cabelo comprido ou dos brincos de argola que eu usava.

“Pô, qual é a dele ? Já não basta o que tive de aguentar quando era moleque?”, pensei irritado.

Por outro lado, refleti: “Mas se essa cara estiver mesmo a fim de confusão? Ele pode até ter uma faca, um revolver, sei lá…”

Eu nunca fui um menino de brigas, sempre fui do tipo contemporizador e pacífico, mas aquela situação estava me exasperando bastante.

E o sujeito chegando. Eu tentava adivinhar o que ele estaria pensando: “Esse galego aí, qual é a dele? Com esse cabelão que parece até uma moça…ih…olha o brinquinho dele…viiiixi, dois brinquinhos??”

Aí eu achei demais e resolvi sustentar o olhar. Virei a cabeça em sua direção e cravei-lhe o olhar de forma mais tenaz que pude. Ele não fraquejou nem por um instante; sua determinação pareceu aumentar, mostrando um certo regozijo estampado em sua caretonha ao perceber minha intenção de não recuar. A essa altura, quem titubeou fui eu, pois me pus a imaginar brigando e rolando pelo chão, engalfinhado com o cabra, correndo sério risco até mesmo de levar uma lambida daquela peixeira no bucho.

Recobrei o juízo, pois isso definitivamente não ornava comigo.
Baixei a vista e, apesar da tensão e do nervosismo, pensei comigo mesmo: “Deixa pra lá, afinal, não é a primeira nem deverá ser a última vez que isso acontece.”

Ele já estava a uns três metros de distância, vindo pela minha direita. Nesse momento, vendo que ele não me desgrudava, num arroubo de valentia decidi: “Se ele quer encrenca, azar o dele, vamos ver no que vai dar…” E levantei o meu pior olhar para o perverso jagunço que eu havia decidido enfrentar numa luta feroz. Não havia mais possibilidade de reconsideração: o conflito estava irremediavelmente deflagrado.

Nesse instante, o inimigo em minha frente, na minha cara, olhando diretamente dentro de meus olhos, disse sem o menor sinal de medo, num só estalo:

– Eita homi bunito da porra!

Deu uma risadinha brejeira, seguida de uma insinuante piscadinha. Virou a cabeça à frente e, resoluto como veio, se foi.
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N. do A.: Você já foi alvo de alguma brincadeira ou ofensa por causa de sua maneira de pensar, de se vestir ou de se comportar?
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3 Responses to Baião de dois

  1. Li disse:

    Essa história é demais.
    Muito boa. Com final inesperado e, para alivío da humanidade, Maestro segui Vivo e Bonitão.
    Beijão

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