ESTORIL – Memórias de um músico de casino

Fiquei superanimado e contente quando a Clara Ghimel me ligou em casa contando que a gente tinha sido contratado pra tocar algumas noites por semana no Casino do Estoril. A Clara é uma cantora baiana de blues/rock/soul com quem eu costumava tocar.

O Casino do Estoril é um mundo à parte, parece até uma pequena cidade, com centenas de funcionários e uma rotatividade diária impressionante.

A partir das 14 horas começa a se formar uma fila nas portas, de gente aguardando a abertura da casa, que se dá pontualmente às 15 horas. Quase todos esses frequentadores estão ali todos os dias, e, em sua grande maioria, jogam nas máquinas caça-níqueis. Interessantemente, a maioria é de senhorinhas na casa dos setenta anos.

Vai também muita gente só pra passear e ver o movimento, e turistas para conhecer o local famoso.
Ao anoitecer começa a chegar outro tipo de frequentador, são os que vão habitualmente para ver os shows, tomar uma bebida ou jantar. E é também nesse horário que começam a chegar os jogadores da pesada, que vão para as mesas de baralho e para a roleta.

Não se pagava para entrar e nem para assistir os shows, somente o consumo do bar. Você podia pedir um café e ficar a noite inteira sentado numa mesa, ninguém te incomodava ou fazia cara feia. Em Portugal, nos cafés da rua também era assim, você podia ficar horas na mesa de uma esplanada só com um café ou uma água, sem o menor constrangimento.

O casino foi inaugurado por volta de 1931 e, segundo consta, era frequentado até por espiões e membros de famílias reais depostas e exiladas durante a Segunda Guerra Mundial.


Vista frontal em 1931

No imenso prédio que abriga o casino há dois ambientes enormes no piso principal, cada um com um palco. Nesse piso há também um teatro, restaurantes e bares.

O palco onde eu tocava tinha à frente um tipo de uma esplanada (praça) com mesas e cadeiras, e um bar em forma de ilha no centro. Num salão contíguo a esse, por trás do palco, ficavam as mesas de roleta e baralho. Todo o espaço que circundava a esplanada era tomado pelas máquinas caça-níqueis. E havia o Salão Prata, que era um misto de restaurante e teatro, onde não havia mesas de jogos e nem máquinas caça-níqueis.

Numa noite de casino havia várias atrações, com sete ou oito shows musicais no ambiente em que eu tocava, e um grande espetáculo teatral que reunia música, dança, circo e mágica no Salão Prata.


Cena do show de variedades

Os grupos tocavam ininterruptamente, saia um e imediatamente entrava outro, a música praticamente não parava. O som era operado por um técnico que atendia todas as bandas da noite.
Além dos grupos havia ainda uma bela orquestra residente, nos moldes das antigas, que tocava um repertório dançante. Alguns músicos integravam a orquestra desde a década de sessenta.

No subsolo ficavam os camarins e um grande salão onde funcionava um restaurante para os funcionários e artistas. Era uma das partes que eu mais gostava no casino. O restaurante funcionava durante todo o tempo em que o casino ficava aberto, direto até as duas horas da manhã.

O pessoal lanchava, jantava e ceava num buffet muito bem montado e variado, que incluia até vinhos tinto e branco à vontade. Tudo absolutamente de graça, ou “de borla”, como se diz em Portugal. E era lá que toda essa gente se encontrava e confraternizava. Eram artistas do mundo todo: brasileiros, moldavos, russos, romenos, italianos, portuguese, espanhóis, ucranianos, búlgaros e aí por diante, todos circulando por ali de acordo com os horários de suas performances.


Outra cena do show de variedades

Metade desse pessoal fazia parte do elenco do show de variedades ao qual em referi acima. Eram contratados pelo período em que o show ficaria em cartaz, que era de um ano, em média. Durante esse período eles moravam em Portugal em apartamentos disponibilizados pelo casino. Como esses contratos eram longos, esses artistas acabavam por se acostumar e a gostar de Portugal, fazendo com que muitos deles decidissem ficar de vez na terrinha.

Tocar com a Clara Ghimel era muito legal, a banda era impecável, eu gostava muito dela cantando e do repertório. Ela tinha um dom que eu valorizo muito: qualquer música que ela resolvesse tocar e cantar ganhava um caráter único e original. Não é todo cantor que tem esse atributo, e ela conseguia isso de uma forma simples e natural. O público gostava bastante e muitas pessoas ali iam ao casino especialmente pra ver e ouvir a gente.

Nos intervalos eu circulava pelas máquinas e pelas mesas pra ver os jogos. Nunca deixava de me espantar quando via os ricaços botando nota atrás de nota de cinquenta ou cem euros em cima da mesa a cada jogada. Rolava uma história de que havia uma sala especial em outro andar, exclusivíssima, quase secreta, para jogadores mais pesados…se esses que eu via eram os leves, imaginem os pesados!


Mesa de roleta

Toquei fixo no casino durante uns dois anos e, nem sei porque, nunca joguei nada, nem mesmo uma moedinha no caça-níqueis.

Alguns meses depois que eu tinha parado de tocar lá, encontrei num show na baía de Cascais o Pedro, técnico que atendia as bandas. Perguntei se estava bem e como iam as coisas no casino, e ele respondeu que não estava mais lá.
Perguntei se ele tinha arrumado outro emprego melhor e ele disse que que não. Com a cara mais feliz do mundo falou que estava dando um tempo, sem fazer nada no momento. Achei meio estranho, mas entendi estupefato logo em seguida quando ele continuou:
“Ganhei dois milhões de euros nos caça-níqueis e agora, pelo menos por enquanto, não faço mais nada…”
É, eu deveria ao menos ter tentado uma fezinha!

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N. do A.: Você já conviveu com pessoas de outros países? Você já foi em algum casino?
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Em homenagem à querida amiga Clara e aos amigos da banda, recordando com saudade esses deliciosos bons tempos, compartilho com você que leu o artigo esse vídeo do BB King, de quem sei que a Clara gosta muito…e eu também, claro!!!! Nós tocávamos essa música e a Clara, como sempre, arrasava!

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