Madredeus – nossa viagem ao País Basco


Zurawski, Carlos Maria, Mariana Abrunheiro, Pedro Ayres, Ana Isabel, Jorge Barata e Rita Damásio

Tínhamos acabado de gravar o CD duplo Metafonia, que ia agora entrar em fase de finalização. Para essa etapa, Pedro Ayres Magalhães, o criador e mentor do grupo, escolheu o estúdio rural Garate, situado nas montanhas do País Basco.


A escolha foi, principalmente, pelo fato desse estúdio possuir um dos maiores objetos do desejo dos produtores, músicos e técnicos de som do planeta…uma rara e espetacular mesa de som Neve dos anos 1970. É um equipamento com uma sonoridade única e peculiar, que confere caráter e personalidade ao som que por ela passa.

Parte da gravação tinha sido realizada no estúdio do tecladista e co-fundador do grupo, Carlos Maria Trindade, na área rural de Pavia, pequena vila no Alentejo de Portugal. “Alentejo” é como é chamada a região do outro lado do rio Tejo, que deságua em Lisboa na altura da torre de Belém, de onde partiram as caravelas do descobrimento.


Estúdio Garate (vista do alto da colina)

Pedro programou a partida para o País Basco e me convidou para acompanhá-lo. Fomos eu, o Pedro Ayres e os técnicos de som Jorge Barata e o inglês Johnatan Miller.
Combinamos a saída por volta das 11h da manhã no miradouro da Graça, em Alfama, bairro supertradicional de Lisboa. Do lugar tem-se uma vista esplêndida de Lisboa, que desfrutávamos enquanto a van que iria nos levar não chegava.

Saimos perto de meio-dia e rapidamente nos lançamos na estrada no sentido de Salamanca, Santander e Bilbao, na Espanha, para, finalmente, alcançarmos o destino final, a litorânea San Sebastian, que fica na fronteira com a França. A viagem foi calma e sem pressa, pois só começaríamos a trabalhar dois dias depois. A idéia era termos um dia livre antes de dar início à mixagem.

O País Basco é um território autônomo da Espanha. Tem uma forte identidade cultural, idioma próprio (euskara) e uma geografia privilegiada, com o mar Cantábrico aos pés de lindas montanhas, colinas e vales.

Chegamos em San Sebastian por volta das 23h e encontramos Kaki, o dono do estúdio, que nos levaria ao local, distante uns 30 minutos da cidade. Kaki Arkarazo é uma figura muito interessante. Músico talentoso, foi integrante de um grupo de muito sucesso na Espanha, mais ou menos, para terem uma idéia, como os nossos Titãs, Paralamas ou Skank. Agora dedica-se ao estúdio e à produção.

Depois de uma estrada de terra serpenteando a montanha, ao chegarmos na casa meu queixo caiu, pois, embora escuro, deu pra ver bem a linda construção de pedra que abrigava o estúdio. Parecia uma fazenda antiga perdida no tempo, com ferramentas de arar e plantar antigas na frente da porta…na minha cabeça era uma cena de filme. As fotos provam que não exagero nem um pouquinho.


A linda casa de Pedra

Ao entrar na casa…sabem aquele cheirinho de casa de fazenda? De madeira antiga? De lareira?
As tesouras do telhado e toda a estrutura, tudo de troncos, móveis rústicos, quartos superaconchegantes… pois, sim, esqueci de dizer, ficaríamos hospedados no local durante as duas semana seguintes.


O salão principal de gravação

Para nossa surpresa o Kaki tinha nos deixado um presente de boas vindas, uma caixa da melhor sidra do lugar. Sidra é uma deliciosa e tradicional bebida do País Basco a base de suco de maçã fermentado. Vem em garrafas que parecem de champagne e tem um gosto peculiar e marcante. Eu nunca tinha experimentado antes…simplesmente adorei! Aliás, a culinária basca é um capítulo à parte, que em breve merecerá um ou mais artigos totalmente dedicados à ela.
Bem, ficamos de conversa a noite toda e bebemos praticamente toda a caixa de sidras.

No dia seguinte pela manhã chegou o filho de Kaki, Martxel, um rapaz de seus dezoito anos, que também era músico (baixista) e trabalhava no estúdio como técnico de gravação. E mais, seria nosso cozinheiro durante a estadia.
Ele nos disse que naquele dia nossos anfitriões viriam nos buscar para comermos na cidade e que a partir do dia seguinte estaríamos em suas mãos. Santas mãos, comprovamos depois.

Faz parte da cultura basca os homens cozinharem, e eles começam aprender bem cedo. O Martxel, apesar da pouca idade, cozinhava muito, mas muito bem mesmo! Conhecia os temperos, os alimentos, como eles reagiam ao preparo no fogo e tudo mais. A comida dele deixou saudade.
Depois do dia de folga e uma maravilhosa excursão gastronômica pela cidade, finalmente estávamos preparados para o início dos trabalhos.


Com Pedro Ayres na sala de controle

O estúdio era extraordinário, além de lindo era muito bem montado, com uma grande variedade de equipamentos de todas as melhores marcas.
Artistas de toda a Europa costumam gravar no Garate. Além de estarem na ponta da gravação digital oferecem também uma gama imensa de recursos analógicos, como a já citada mesa de som Neve, vários amplificadores de guitarra, microfones a granel e tal e tal. Uma manhã o Martxel me convidou para experimentar todos os amplificadores de guitarra. Me animei um pouco demais e acabei acordando todo mundo com o volume da brincadeira, rs!

O trabalho transcorreu muito bem, as vinte músicas do CD foram sendo mixadas em meio a formidáveis refeições e belas noites de sono.


Depois de uma jornada de trabalho, jantar descontraído com Pedro e Johnathan

Nos últimos dias recebemos a visita dos companheiros do Madredeus Carlos Maria, Gustavo Roriz, Ana Isabel, Mariana e Rita, que vieram de Lisboa dar uma olhada no andamento dos trabalhos.

O lugar era mesmo incrível, quando você não estava dentro do estúdio parecia que estava numa pousada medieval.
Na área externa, um pouco adiante de onde estavam aquelas ferramentas agrícolas antigas às quais me referi no início, havia carvalhos plantados em círculo, formando uma clareira de uns dez metros de diâmetro. Segundo Kaki, era uma ancestral herança mística, palco de antigos rituais. Será? Quando a bruma do final da tarde envolvia os carvalhos eu não tinha dúvida.

Os cinco carvalhos

O trabalho terminou e era hora de voltarmos para Lisboa. O show de lançamento do CD e o início da turnê estavam bem próximos. Passaríamos os próximos quinze dias ensaiando em Lisboa para a estréia, quando seria também gravado o DVD.
Mais uma vez, muita estrada pela frente e bons momentos e histórias na bagagem.
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N. do A.: Eu amo cozinhar, comer e beber…certamente esses foram alguns fatores que contribuiram para que eu me identificasse bastante com a fascinante cultura do País Basco e com seu povo altivo e hospitaleiro.
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Veja outras fotos da jornada:

Ana Isabel, Jorge, Rita, Pedro Ayres, Kaki, Mariana e Zurawski


Com Jorge e Pedro Ayres no alpendre da casa


Com Mariana e Ana Isabel

Os cinco carvalhos na bruma

Pedro Ayres e Jorge na sala de controle

Meu quarto 


Vista da janela do meu quarto

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