Pequeno Perfil de Belchior


Em Santo Antônio da Patrulha (RS), com Belchior, 1993

Nossa…falar o que de Belchior?

Antes de ir morar na Europa eu toquei durante 15 anos com ele. Poderia ficar horas falando de coisas que vivemos na estrada. Uma história puxa outra, mas vamos lá, tentarei não me alongar muito.

Independentemente de minha relação profissional e de amizade com ele, não há dúvida de que o Belchior é um dos maiores compositores brasileiros, um poeta maior, criador de clássicos absolutos e eternos da música brasileira.

Foi sempre um companheiro de estrada impecável, que encarava tudo com otimismo, serenidade e praticidade, mesmo quando, eventualmente, alguma coisa não andava bem. Nunca o vi fazer um show de mau humor ou com má vontade, e nunca o vi deixar um teatro sem antes ter atendido absolutamente todos os fãs que iam ao camarim depois dos shows. Era sempre assim. Por essa e por outras que ele é amado e idolatrado pelos fãs. Também era muito generoso com os músicos no palco e queria que todos brilhassem, incentivando e dando espaço para que isso acontecesse.


Belchior (ao fundo, à esquerda), eu e banda Radar, Porto Alegre, OSPA , 1990

Sua serenidade não se abalou nem mesmo quando, certa vez, numa parada de estrada entre Recife e Caruaru, uns malandros levaram ele no bico com aquele famoso golpe da bolinha embaixo dos copinhos (ou cascas de nozes, tampinhas, dedais, etc). O sujeito diz pra você adivinhar debaixo de qual das três tampinhas está a bolinha e se você acertar ganha o dinheiro que foi apostado em cima do caixote.

O cara deixa você acertar duas ou três vezes de propósito, para aí, então, começar a te “esfolar”. O Bel não percebeu a jogada, e, apesar de avisarmos, foi em frente aceitando o desafio dos caras. A gente pensou que ele conhecia o golpe, mas que estava seguro o suficiente pra enfrentar e desbancar os malandros…pensamos que era um risco totalmente calculado, mas…que nada, perdeu uns duzentos paus ali na brincadeira. Quando finalmente ouviu o que dizíamos, já a uns cinquenta quilómetros pra frente, ele percebeu o logro e caiu na risada.

Eu achava impressionante como ele também era talentoso para outras formas de expressão. Além de músico ele também pintava quadros e fazia ilustrações, inclusive, a arte gráfica do CD “Autorretrato”, de 1999, é baseada em seus autorretratos.


Autorretrato de Belchior

Nos últimos anos que convivemos, ele estava bastante envolvido numa tradução para português, do original em italiano da Divina Comédia, de Dante Alighieri. Além de profundo conhecedor da língua portuguesa e falar fluentemente francês e inglês, ele também dominava o italiano.

O livro conteria também ilustrações suas, uma para cada capítulo. Ele avançava com essa empreitada tanto nos hotéis como em trânsito, seja em carros, vans ou aviões. Ele sempre me mostrava, contente, quando terminava uma ilustração ou um capítulo. Ele gostava de mostrar e eu gostava de ver. Belchior fez outro projeto envolvendo ilustrações e música: musicou trinta poemas de Carlos Drummond de Andrade, lançados num CD acompanhado por um livro com ilustrações que ele fez de Drummond.

Toquei com o Bel de 1986 até 1994 (fase banda Radar – em breve nas crônicas), e depois da Radar, de 1994 até 2000 em formato duo. Foram mais de dez discos gravados e, até onde contei, em 1995, mais de mil shows com ele, comprovados através dos registros do empresário e amigo Hélio Rodrigues, que empresariou o Bel durante mais de vinte anos…depois disso perdi a conta.


Com Belchior e banda Radar em Porto Alegre, na OSPA, 1989 (Belchior ao fundo, à direita)

Como podem imaginar, foi um aprendizado inestimável pra mim, tanto musical como em questões relacionadas especificamente ao ofício de músico, e, claro, sem esquecer o aspecto de amadurecimento pessoal como um todo.

Naquela época, sem sombra de dúvida, ele era um dos artistas que mais fazia shows Brasil. Fazíamos uma média de vinte e poucos shows por mês e chegávamos a ficar fora em turnês de até três meses sem nem pisarmos em São Paulo.

Percorremos o Brasil de ponta a ponta várias vezes, tocando não só nos principais teatros de todas as capitais e cidades do interior, como também nos mais improváveis e recônditos lugares, como vilas na Amazônia e tantos outros rincões. Era extraordinário observar como o Belchior era admirado por um público tão variado e distinto.

Independentemente do lugar onde tocávamos, fosse em teatros ou feiras e festas populares, os shows eram sempre um grande sucesso, com as pessoas cantando todas as músicas do início ao final do espetáculo. Quem viu isso sabe do que falo e não esquecerá jamais.


Pelourinho, Salvador, 1995

Ao retornarmos numa cidade onde havíamos passado há algum tempo, era curioso constatar uma constante renovação do público através dos filhos e irmãos mais novos dos admiradores habituais, que à medida que cresciam tornavam-se fãs também.

O Belchior tinha um espírito totalmente nômade, simplesmente adorava estar na estrada, quanto mais melhor. E, felizmente, eu também curtia muito a vida da estrada. Há músicos que não suportam essa vida e têm sua estabilidade emocional extremamente abalada quando estão há muito tempo fora de casa. Não era assim com o Bel, não era assim comigo, a gente adorava aquela vida.
Ele gostava também de tocar com outros músicos, inventar projetos, como a turnê com os amigos Ednardo e Sebastião Tapajós.


Foto de divulgação para turnê (Zurawski, Belchior, Ednardo e Sebastião Tapajós), 1998

Vira e mexe me perguntam se ele usava alguma droga, se bebia demais, se era dado a algum tipo de exagero dessa natureza. Não, não e não, absolutamente. Era um sujeito equilibrado e centrado, que só bebia uma ou duas taças de vinho no jantar, e acendia um cachimbo ou charuto de vez em quando.

O Rapaz Latino Americano era um excelente companheiro de estrada, muito gente fina, sempre alto astral e de bom humor. Muito culto, era sempre um ótimo papo, e olhe que tempo pra isso não nos faltava ao longo de tanto chão por percorrer…ele só era chato de doer quando acendia o imenso charuto dentro do carro em dias de chuva…com a janela fechada!! 😳

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N. do A.: Espero que tenha gostado da leitura. E você, gostava do Belchior? Conhecia essa faceta pintor/ilustrador dele?
Fique à vontade pra deixar seu comentário a respeito desta incrível figura.
Conheça nossos álbuns

Veja mais algumas fotos que guardei comigo:


Santo Antônio da Patrulha (RS), 1993

Bahia, por volta de 1995


Bahia, por volta de 1995


Porto Alegre, OSPA


Minas, por volta de 1980


Drummond por Belchior

 

 

4 Responses to Pequeno Perfil de Belchior

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